… E a vida passou na janela …

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… E a vida passou na janela …

A porta parece ser a dos fundos, pois olhando da janela …. todas as portas são dos fundos …

Estar na janela é ver de longe, protegido, amparado por paredes, teto, vidros, móveis, cortina fácil de fechar – esconder-se para espiar. É de onde se vê o que não quer se mostrar, o escondido, o que não se sabe olhado, vigiado. É um olhar surdo, sem diálogo, uma relação unilateral com o mundo. Estar na janela é como olhar pelas grades de uma prisão, ou ver o infinito através de um telescópio. É estar distante. É não se envolver.

E assim ele viu … e assim ele julgou, entendeu, fomentou o poderia ser sem na verdade ter sido, olhando apenas de sua janela, sem jamais ter se encontrado com nada que fosse realmente dela, sim, por várias vezes tentou, mas algo escapou e ele não viu. Não viu que ela gritava , agonizada em uma febre de entender o porquê dessa distancia quase autista … talvez por vingança … talvez perdida, um minuto tentou chamar-lhe a tenção e então se perdeu …e se encontrou ….

Da janela não se pede licença, pode-se invadir todos os espaços sem tropeços, mas também não se chega a lugar nenhum. Todos os gatos são pardos, todos os rostos opacos, as luzes tremeluzentes, a vida passa, a janela fica – aberta ou fechada – inacessível. Esconderijo de quem quer viver e não encontra coragem. Coragem?  É tudo o que a vida quer da gente…

É que a vida é bela quando olhamos pela janela, mas na janela vida nossa não há.
Viver é sair do quadrado vazado, fazer parte da paisagem antes admirada. Beleza sim, riscos mais, desafios infinitos, cansaço, medo, dor. Estar sujeito a tornados e tempestades, sem controle, sem visão panorâmica de nada. Dos limites do frame vácuo protegido, o olhar de águia precisa se habituar a ser pombo de voo desvairado entre a multidão. Comer farelos com gosto, desviar dos apressados, cagar nas cabeças erradas, deixar penas no caminho.
De tudo o mais, no risco do descontrole primordial de viver, estar sujeito à gentileza desconhecida, aos abraços e encontrões que se tornam encontros, a achar petróleo no esgoto, ganhar chocolates suíços, um ombro amigo, uma cerveja colega, um acaso para eternidade de instantes ou de uma vida, amor – por que não?, afetos infantes, você mesmo ali, surpreso: “e eu achando que estava na janela”, sua alma já havia pulado dela há tempos, só te faltava humildade para sair pela porta dos fundos e encontrá-la, afinal, que importa? Toda saída leva à vida… leva a vida…
Ela ainda espera do lado de lá ou de cá que ele finalmente abra a porta e decida de uma vez entrar e não desistir … insistir na vida da vida que há…. pois ela da janela não suporta mais o olhar ….

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  1. Janela da vida, janela da alma, sei lá podemos até procurar uma justificativa, é mais pratico, Freud poderia até dizer que se trata de Voyeur, quer só observar, não quer participar, pra se preservar ou não, espera que tudo passe como olhar através da janela de um trem …..

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