Mea Culpa …

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Mea Culpa …

Mea Culpa …

Numa palestra sobre conceitos de neurociência, em que a cientista demonstrava a localização de emoções básicas em áreas do cérebro humano, uma mulher da plateia lança a seguinte pergunta: E a culpa, onde fica?
Reflexiva, a palestrante rebate: Boa pergunta… Ainda não sabemos!

mea culpa 3
Sentimento complexo, a culpa parece derivar de uma equação cujo produto é o sofrimento do próprio sujeito. Em síntese, é direcionar a agressividade, algo primitivo do ser humano, contra si mesmo diante de uma situação que gera auto-recriminação.
Sem os recursos da neurociência e o empirismo da academia, Freud se propôs e responder à mesma pergunta em 1930, no livro O Mal Estar na Civilização. A publicação, pela forma que trata o tema, parece ter sido lançado neste milênio: culpa nunca foi tão difundida, tão óbvia e tão inerente àqueles que se sentem humanos. E é daí que precisamos partir e pensar: para sentir-se culpado, alguém ultrapassou aquilo que considera seus próprios limites.
Para simplificar o conceito de limites, podemos entender que são as rédeas introjetadas durante o desenvolvimento infantil para embasar nossos critérios de julgamento sobre as situações objetivas e subjetivas. As objetivas parecem mais simples: os limites impõem o princípio de realidade necessário para que o ser humano infantil reprima suas pulsões primitivas (entre elas, a agressividade) na adaptação ao mundo do qual ele quer extrair valor e sobreviver. Já entre as subjetivas, há uma sombra que a neurociência ainda não pode responder. Mas Freud explica: o mesmo mecanismo que impõe o princípio de realidade conduz o ser humano para além do seu princípio narcísico de satisfação total (o princípio do prazer). Esse mecanismo funciona como um policiador das nossas atitudes, pronto para dar uma dura na gente.

 

 

Mal Estar na Civilização retoma conceitos fundamentais da obra de Freud e relaciona o sentimento de culpa às pulsões e ao recalque. O recalque é aquilo mesmo que diz o jargão popular brasileiro: você vê no outro, queria ter, queria executar, queria expressar… mas um limite auto-imposto te impede. E aí você inveja quem não se recalcou! O recalque é produto da sua auto-censura, construída com base numa referência de valores instaurados a partir da sua vivência. Esses valores são o conjunto de leis de uma sociedade, a religião, a família, os códigos de um grupo, que permitem o convívio de seus membros em troca do recalque daquilo que não é adequado para o bem maior.
E de onde vem a culpa? Vem do fato de nem todos os valores estarem em sintonia com suas pulsões primitivas – entre elas, a agressividade. Ao tomar uma atitude da qual posteriormente você sequer se reconhece como autor (tipo brigar com o chefe ou não resistir a uma grande barra de chocolate em plena segunda-feira), você sabe que se comportou como a criança que todos nós ainda carregamos no interior. E quando essa criança é atendida em seu desejo infantil, a mensagem que nossa mente pode nos enviar é que ultrapassamos os limites introjetados. É aí que vem a culpa: as pulsões agressivas deixam de ser dirigidas ao outro e são direcionadas para nós mesmos de forma torturante. Fazemos isso de forma inconsciente.
Livrar-se da culpa requer mais que dissecar o sentimento na área do cérebro. Para livrar-se da culpa também ainda não tem remédio. Ter consciência das atitudes que te fazem sentir culpado é um bom começo para dosar o quanto de agressividade você vai querer direcionar contra si mesmo para punir-se pelo fato de não estar atuando em sua própria versão mais idealizada. Culpar-se menos, então, não é um processo automático de auto-ajuda. É um projeto de auto conhecimento para dosar essa composição inerente àqueles que se permitem ser humanos e conviver em grupo.

Torna-te quem tu és……

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