Bauman e a vitrine

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Bauman e a vitrine

BAUMAN E A VITRINE

Bem, hoje estou para pensar com Bauman … sei la… pertinente ou não…. repetindo ou não… há sempre um novo olhar …

Bora consumir? É o apelo das vitrines …. mas vamos olhar de perto … bem, todavia, pertencer ao clube dos consumidores tem lá suas exigências, sendo preciso estar adequado a elas. O que acontece quando as pessoas também se transformam em mercadorias, precisando se vender e correndo o risco de serem indiferentemente descartadas? O que acontece quando essa lógica chega aos relacionamentos interpessoais, através de aplicativos como o Tinder?

Na sociedade de consumidores, consumir não é mais uma opção. O consumo tornou-se uma exigência, uma maneira de ter participação social ativa, de se tornar interessante para empregadores, amigos e parceiros em potencial. Como explicitou Zygman Bauman no livro Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria, os consumidores que têm o poder para exigir determinado produto ou tratamento do mercado são os mesmos que precisam se adequar a suas regras e tendências. Através de suas escolhas de consumo, os indivíduos da sociedade de consumidores também se vendem como mercadorias que precisam ser atraentes aos olhos de quem desejam atingir. Em outras palavras, eles não apenas pressionam o mercado para que produza bens que lhe agradem e lhe sejam úteis, mas também são obrigados a ser parte essencial do sistema consumista, no qual os próprios indivíduos precisam vender-se como desejáveis, valorosos, interessantes e atraentes.
Eis que surge, em 2012, um aplicativo para sistemas iOS e Androide chamado Tinder. O objetivo? Facilitar a vida de quem quer encontrar uma pessoa interessante para marcar um encontro – ou pelo menos essa é a premissa. As motivações dos usuários variam entre manutenção da vaidade, diversão, cura de término de namoro, sexo casual e até encontrar o amor da sua vida do outro lado da tela.

Mas o que isso teria a ver com a relação entre consumidores e o mercado? Simples. O Tinder nada mais é do que uma gigante vitrine virtual, na qual os usuários se transformam em mercadorias enquanto exercem a função de compradores. No aplicativo, milhares de indivíduos se expõe buscando atingir as pessoas que desejam, ao mesmo tempo em que selecionam que tipo de mercadoria querem consumir nessa mesma vitrine: alto(a), baixo(a), sarado(a), estrangeiro(a), da mesma cidade, moreno(a), loiro(a) e assim por diante.
Sabendo que estão sendo avaliados, cada usuário monta seu perfil de modo a torná-lo o mais atraente possível para o tipo com quem busca se relacionar. As fotos, as frases de apresentação, tudo é pensado de modo a conquistar o maior número de matches possível, de quem interessa. Quanto mais opções, melhor. Afinal, um dos princípios do mercado é a abundância e um de seus requisitos mais importantes é a seletividade.

De trinta opções, escolhem-se dez que mais agradam. Desses dez candidatos, alguns serão eliminados para que sobrem apenas os mais qualificados para agradar o usuário. Os mais bonitos, os com melhor papo, os que moram nos lugares mais legais, cada um tem sua própria ordem de preferência. O fato é que, ao final do processo seletivo, sobram umas três ou quatro opções que, seja virtualmente, seja no olho no olho, terão de provar serem produtos que valem todo o investimento emocional e físico que o usuário terá que dedicar a elas. Toda essa triagem é feita em minutos, tão naturalmente que sequer a percebemos.
A comparação tão fria entre o sistema consumista e as relações interpessoais parece exagerada, mas, na verdade, não é. Arranjar um emprego, conquistar notoriedade, conseguir um visto, conviver com pessoas interessantes, criar um perfil virtual; todas essas atividades, tidas como banais pela sociedade consumidora, estão impregnadas por valores de mercado como diferencial competitivo, desempenho, estratificação, entre outros.

Em grande parte, isso se deve ao incessante trabalho da publicidade para normalizar a existência de valores de mercado entre as atividades do dia a dia. Em outras palavras, a publicidade, através de suas imagens, discursos e anúncios, torna normal o fato das vidas contemporâneas serem permeadas – e, em muitos aspectos, regidas – por valores do mercado capitalista. Através da repetição dessas mesmas imagens e discursos, diferentes anúncios de diferentes marcas ensinam ao indivíduo consumidor que é normal fazer a barba para uma reunião importante, vestir-se melhor em ocasiões especiais, trocar o carro por seu modelo novo, ser ocupado, saber administrar o próprio tempo, admirar uma pessoa que cuide da aparência e assim por diante. No fundo, essa supostamente inocente rotina reflete características e interesses de mercado, agora transformados em valores indispensáveis: ambição, flexibilidade, adequação, qualificação.
É um mecanismo tão bem amarrado que se insere mesmo nas esferas mais íntimas, inclusive nos relacionamentos. Assim como novos produtos estão sempre sendo lançados em substituição aos antigos e o descarte de mercadorias é cada vez mais livre de remorso ou reflexão, a necessidade de se envolver com outros parceiros e experimentar coisas novas é latente e perturbadora. Se o olho no olho nos obriga a ser mais delicados – diante de reações que não podemos controlar ou prever na pessoa diante de nós –, o virtual permite que nos afastemos, ignoremos ou mesmo partamos o coração de alguém a distância, sem ter que lidar com a incômoda sensação de perceber que aquela pessoa é de carne e osso.

Como consumidores mimados (usando aqui o termo do próprio Bauman), os usuários do Tinder descartam outros usuários pelos menores caprichos: uma pinta, uma frase ruim, o cabelo naquela foto. Mas até aí, convenhamos, trata-se de um aplicativo para proporcionar encontros rápidos, sendo que a maioria dos casais não chega sequer a se encontrar mais de uma vez. Assim, a triagem digital, dentro da lógica na qual estamos atualmente inseridos, faz sentido. O problema é quando esse comportamento não muda fora do ambiente do aplicativo. Não há transição entre o usuário e o sujeito com uma história e sentimentos. Existe apenas a vontade de saciar um desejo de consumo, mesmo que seja o de encontrar o amor da sua vida. Ao menor sinal de que a pessoa não corresponde às suas expectativas, mesmo em coisas pequenas, nosso aventureiro de Tinder termina o encontro, vai para casa, acessa sua conta e já procura um candidato melhor – sem necessariamente notificar o candidato descartado de que ele perdeu a vaga.
Afinal, se a mercadoria veio com defeito, a culpa é do fabricante. Ele tem sorte de não ser processado (ou difamado) por propaganda enganosa.
rs.

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