Do que escorre entre os dedos …. ou teclas … ou toques …

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Do que escorre entre os dedos …. ou teclas … ou toques …

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.”
Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar. Não me atrevo a ainda a discutir a sua obra, tamanha contemporaneidade que vislumbro….. mas a alguns entendimentos me atrevo:
O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo. Ainda aqueles que se dizem mais “discretos” acabam se expondo de forma a escorrer pelos dedos… pelo público …. e imaginemos o que lhe acontece em privado….. ou não….

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Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida. Mas muitos sentem só estarem vivos desta forma…. ainda que se arrastem feitos zumbis incapazes de lidar e olhar para suas feridas diárias… porque, vamos combinar , o dia a dia dói pra kct (desculpem o termo “chulo) .

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Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

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O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angustia. Filosoficamente a angustia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

Eu acho que me desloco, não concluo…..

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  1. Maravilhoso seu texto!
    E, infelizmente, a mais pura verdade.
    O único livro de Zygmunt Bauman que eu li foi “Amor líquido”.
    Eu me sinto extremamente incomodada com esse mundo atual em que tudo é consumido como “fast food”. Nada é feito para durar. Os sucessos de hoje não serão mais lembrados no ano que vem, nem mesmo como marca de um momento, uma geração.
    E fico com a sensação que esse comportamento não pode ser freado ou interrompido… é algo que veio para ficar…

    Curtido por 1 pessoa

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