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Parte de um diálogo entre dois mestres …. quem tem olhos que ouça….. rs

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Parte de um diálogo entre dois mestres …. quem tem olhos que ouça….. rs

A Parte disso digo: Se liga. Aceite. As vezes a pessoa não quer você.

 

Poderia eu aqui tecer muitos comentáris sobre esse diálogo , mas minha natureza inquieta me  convida a instigar…. e vc? o que pensa? O que é aceitar e viver com o outro?

 

kd

 

 

BUBER: E, veja, posso acrescentar uma questão técnica? [Rogers: Uh hum]. Aprendi, no decorrer da minha vida, a valorizar as palavras [Rogers: Uh hum].

 

E penso que, na psicologia moderna, isso não acontece na medida suficiente. Quando encontro algo que é essencialmente diferente de outra coisa, quero uma nova palavra [Rogers: Uh hum]. Quero um novo conceito [Rogers: Uh hum]. Veja, por exemplo, a psicologia moderna, em geral, diz sobre o inconsciente que ele é uma certa forma de psique. Isso não tem sentido algum para mim. Se algo é tão diferente – se duas coisas são tão diferentes de uma outra, como essa tensão da alma, mudando a cada momento, onde eu não posso entender coisa alguma, quando tento entender – de um lado – eh, esse ser em tempo absoluto, e isso ,uh, o que chamamos de inconsciente, isso não é um fenômeno de maneira alguma. Nós não podemos, não podemos ter acesso a isso, temos apenas que lidar com seus efeitos, e por aí afora. Não podemos dizer que o primeiro é psíquico e o segundo é psíquico; que o inconsciente é algo no qual psíquico e fisiológico estão, como posso dizer, misturados, não é suficiente.

Eles se interpenetram de tal maneira que vemos, em relação a isso, que os termos corpo e alma são, por assim dizer, termos antigos [Rogers ri], conceitos tardios e consciência uma realidade primal. Agora, como podemos compreender esse conceito único?

ROGERS: Eu concordo muito com você a esse respeito, mas eu penso que quando uma experiência é, definitivamente, de um tipo diferente, então ela merece um termo diferente. Penso que concordamos sobre isso. Talvez, como vejo que o tempo está passando, gostaria de levantar outra questão que tem muito sentido para mim e não sei bem como colocar. Deixe-me expressá-la mais ou menos assim: Quando vejo pessoas entrando em relacionamentos na terapia, penso que uma das coisas que passei a acreditar e sentir e experienciar é que aquilo que eu considero natureza humana ou natureza humana básica – esse termo é pobre e você deve ter uma forma melhor de expressar isso – é, realmente, algo em que se pode confiar. Parece-me que, em alguns dos seus escritos, eu percebo um pouco desse mesmo sentimento.

De qualquer forma, minha experiência em terapia tem mostrado que não é necessário fornecer motivação em direção ao positivo, em direção ao construtivo. Isso existe no indivíduo. Em outras palavras, se pudermos libertar o que é mais básico no indivíduo, isso será construtivo. Agora, não sei… novamente, somente espero que, talvez, isso possa provocar alguns comentários da sua parte.

BUBER: Ainda não entendi a questão exata nisto.

ROGERS: A única questão que estou levantando é: “Você concorda”? Ou, se não estou sendo claro, por favor, faça-me outras perguntas. Tentarei colocar de outra forma. Bem, isto, pode ser um caminho contrastante [Buber: Hmm]. Parece-me que, muito no caminho da psicanálise ortodoxa, ao menos, que tem sustentado que quando o indivíduo é revelado, quero dizer que quando você realmente chega ao fundo do que está dentro da pessoa [Buber: Hmmm], ela consiste, principalmente, de instintos, atitudes, e assim por diante [Buber: Hmmm], que devem ser controladas. E, isso vai em direção diametralmente oposta à minha própria experiência, que é que quando você chega ao que é mais profundo no indivíduo, esse é o exato aspecto que mais pode ser confiado, em termos de ser construtivo e tender em direção à socialização ou em direção ao desenvolvimento de melhores relações interpessoais. Isso faz sentido para você?
BUBER: Entendo. Eu gostaria de colocar isto de uma forma um pouco diferente.

Até onde entendo, quando tenho a ver com, eu diria, uma pessoa problemática, ou simplesmente uma pessoa doente, uma pessoa que as pessoas chamam, ou querem chamar, uma pessoa má [Rogers: Uh huh]. Veja, em geral, o homem que tem realmente a ver com o que chamamos espírito, é chamado não pelas boas pessoas, mas somente pelas pessoas más, pelos problemáticos, pelos inaceitáveis, e por aí afora. As boas pessoas podem ser amigas dele, mas nãonecessitam dele. Então, estou interessado somente nos tão chamados maus, problemáticos e por aí afora. E a minha experiência é se eu tiver êxito em, e isso está próximo do que você diz, mas é um tanto diferente, se me aproximar da realidade dessa pessoa, a experiencio como uma realidade polar.
ROGERS: E o que é isso? Polar?

BUBER: Realidade polar [Rogers: Uh huh]. Veja, em geral, dizemos que isso é ou A ou Não-A. Não pode ser A e Não-A ao mesmo tempo [Rogers: Uh huh]. Não pode. Não pode. Quero dizer, aquilo que você afirma serconfiável. Eu diria que se situa em relação polar com o que menos pode ser confiável nesse homem. Você não pode dizer, e talvez eu me diferencie de você nesse ponto, você não pode dizer, “Oh, detecto nele exatamente o que é confiável”. Eu diria, agora, quando o vejo, quando o compreendo mais amplamente e mais profundamente que antes, vejo toda a sua polaridade e, então, vejo como o pior e o melhor nele são dependentes um do outro, ligados um ao outro. E posso ajudar – é possível que eu seja capaz de ajudá-lo – simplesmente ajudando-o a modificar a relação entre os polos. Não simplesmente pela escolha, mas através de uma certa força que ele dá a um dos polos em relação ao outro, os polos sendo qualitativamente muito similares um ao outro. Eu diria que não há, como pensamos geralmente, na alma de um homem o bem e o mal opostos. Existe, muitas vezes e de diferentes maneiras, uma polaridade; e os polos não são bem e mal mas, mais exatamente, sim e não, mais exatamente, aceitação e recusa [Rogers: Uh huh].

E, podemos fortalecer, ou ajudá-lo a fortalecer, o polo positivo. E, talvez, possamos até fortalecer o controle de direção nele, porque essa polaridade é, frequentemente, sem direção. É um estado caótico. Poderíamos trazer uma nota cósmica. Podemos ajudar a por ordem, a por forma. Porque penso que o bem, o que podemos chamar de bem, é sempre só direção. Não uma substância.
ROGERS: Se eu tomar essa última parte particularmente, você está dizendo que talvez possamos ajudar o indivíduo a fortalecer o sim, que é afirmar a vida ao invés de recusá-la. É isso.

 

 

 

BUBER: M-hummmm. Veja, eu discordo somente nessa palavra, eu não diria vida, eu não colocaria um objeto.
ROGERS: Um huh.
BUBER: Eu gostaria de dizer simplesmente “sim”.
ROGERS (para Dr. Friedman): Você parece estar querendo dizer alguma coisa. Acho que poderíamos continuar sobre isso para sempre.

FRIEDMAN: Minha função como moderador é estimular as questões e sinto que duas questões interrelacionadas foram mencionadas aqui, mas, talvez, não evidenciadas, e sinto que é muito importante, eu gostaria de entender. Quando Dr. Rogers perguntou ao Professor Buber sobre sua atitude em relação à psicoterapia, ele mencionou como um dos fatores componentes da sua abordagem à terapia, a “aceitação”. Agora, Professor Buber, como vimos ontem à noite, frequentemente usou o termo confirmação, e tenho a sensação, tanto a partir do que eles disseram hoje quanto do meu conhecimento dos seus escritos, que pode ser realmente importante clarificar se eles querem dizer aproximadamente o mesmo. Dr. Rogers escreve sobre aceitação, além de dizer que é um olhar caloroso pelo outro e um respeito pela sua individualidade, por ele como uma pessoa de valor incondicional, diz que significa “uma aceitação e consideração por suas atitudes do momento, não importando quão negativa ou positiva, não importando o quanto elas podem contradizer outras atitudes que ele sustentou no passado”. E “essa aceitação de cada aspecto flutuante desta outra pessoa estabelece para ele um relacionamento de calor e segurança”. Agora, me pergunto se o Professor Buber consideraria confirmação similar a isso ou se ele veria confirmação como incluindo, talvez, não ser aceito, incluído alguma exigência sobre o outro, que poderia significar, num certo sentido, uma não-aceitação dos seus sentimentos no momento, a fim de confirmá-lo mais tarde.

BUBER: Eu diria que todo verdadeiro relacionamento existencial entre duas pessoas começa com aceitação. Por aceitação, quero dizer – talvez os dois conceitos não sejam exatamente iguais – por aceitação quero dizer ser capaz de dizer, ou melhor, não de contar, mas simplesmente fazer com que a outra pessoa sinta que eu o aceito exatamente como ele é. Eu tomo você exatamente como você é. Bem, então, mas não é ainda o que quero dizer com “confirmar o outro”. Porque aceitar é simplesmente aceitar o outro, como quer que ele seja, nesse momento, nessa sua realidade.

Confirmar significa, antes de tudo, aceitar toda a potencialidade do outro [Roger
s: Uhm hum], e fazer até mesmo uma diferença decisiva em sua potencialidade e, é claro, podemos estar enganados repetidas vezes sobre isso, mas é só uma possibilidade entre os seres humanos. Posso reconhecer nele, conhecer nele, mais ou menos, a pessoa que ele foi – posso dizer somente com essa palavra –criado para se tornar. Em linguagem simples e factual, não encontramos o termo para isso porque não encontramos isso no termo, o conceito de “ser implica em tornar-se”.

É isso que devemos, até onde possível, compreender, senão no primeiro momento, então depois disso. E agora eu posso, não somente aceitar o outro como ele é, mas confirmá-lo, em mim mesmo e, então nele, em relação a essa potencialidade que é significada por ele e que pode agora ser desenvolvida, pode evoluir, pode responder à realidade da vida. Ele pode fazer mais ou menos nessa esfera de ação, mas eu posso, também, fazer algo. E, isso é com objetivos ainda mais profundos que a aceitação. Tomemos, por exemplo, um homem e uma mulher, marido e mulher.

Ele diz, não expressamente, mas simplesmente por toda a sua relação com ela, que “eu te aceito como você é.” Mas issonão quer dizer “Eu não quero que você mude.” Mas diz, “Eu descubro em você, simplesmente através do meu amor acolhedor, descubro em você o que você está destinado a se tornar”. É claro, isso não é algo a ser expresso em termos massivos. Mas, pode ser que cresça e cresça com os anos de vida em comum. É isso que você quis dizer?

ROGERS: Sim. E penso que isso soa muito parecido com essa
qualidade que está na experiência que eu penso como sendo aceitação, apesar de eu ter tendido a expressá-la de forma diferente.

Eu penso que aceitamos o indivíduo e a sua potencialidade. Penso ser uma questão real se poderíamos aceitar o indivíduo como ele é, porque frequentemente ele está num estado lastimável, se não fosse pelo fato de que nós, em certo sentido, também compreendêssemos e reconhecêssemos seu potencial. Acho que sinto, também, que a aceitação de um tipo mais completo, aceitação dessa pessoa como ela é, é o mais forte fator de mudança que eu conheço. Em outras palavras, penso que isso libera a mudança, ou libera potencialidade de descobrir que como eu sou, exatamente como eu sou, eu sou completamente aceito – então não posso deixar de mudar. Porque, então, sinto que não existe mais a necessidade de barreiras defensivas e, então, o que assume o comando são os processos evolutivos da própria vida.

BUBER: Temo não estar tão certo disso quanto você está, talvez por não ser terapeuta. E, eu tenho necessariamente que lidar com esse tipo problemático. Eu não posso, na minha relação com ele, dispensar essa polaridade. Não posso por isso de lado. Como eu disse, tenho que lidar com ambos os homens. Tenho que lidar com o problemático nele. E tenho que… existem casos quando devo ajudá-lo apesar dele mesmo. Ele quer minha ajuda contra si mesmo. Ele quer… veja, o mais importante é que ele confia em mim. Sim, a vida tornou-se sem fundamento para ele. Ele não pode pisar em solo firme, em terra firme. Ele está, por assim dizer, suspenso no ar. E o que ele quer? O que ele quer é um ser, não somente em quem ele possa confiar, como um homem confia em outro, mas um ser que dá a ele a certeza de que “existe um solo, que existe uma existência. O mundo não está condenado à privação, degeneração, destruição. O mundo pode ser redimido. Eu posso ser redimido porque existe esta confiança”. E, se isso é alcançado, agora posso ajudar esse homem, mesmo na luta contra ele mesmo. E, isso eu só posso fazer se eu distinguir “aceitar” de “confirmar”.

ROGERS: Sinto que uma dificuldade com um diálogo é que pode facilmente não ter fim, mas penso que por piedade tanto do Dr. Buber quanto da platéia, esse… [Risos].
BUBER: O que você disse?

ROGERS: Disse que por consideração a você…

BUBER: Não por mim, heh heh.

ROGERS: Tudo bem… [risos] … por consideração à platéia.

FRIEDMAN: Permitam-me ser impiedoso e colocar uma última questão. É assim [Buber: Huh huh]. Minha impressão é que, por um lado, houve mais insistência por parte do Dr. Rogers na completa reciprocidade da relação Eu-Tu na terapia, e menos por parte do Dr. Buber; mas por outro, tenho a impressão que o Dr. Rogers é mais centrado no cliente…

BUBER: O quê?

FRIEDMAN: Mais centrado no cliente… (risos) mais preocupado, mais preocupado com o tornar-se da pessoa. E Dr. Rogers fala, em um artigo recente12, de ser capaz de confiar no organismo de alguém, que ele encontrará satisfação, que ele expressará a si. E fala do locus do valor como estando dentro de alguém, enquanto que tenho a impressão, a partir do meu encontro com Dr. Buber, que ele vê valor mais no “entre”. Gostaria de saber se esse realmente é um ponto de controvérsia entre vocês dois.
ROGERS: [Buber: Hum] Posso expressar minha visão sobre isso, hum, em termos um pouco diferentes daqueles que você usou e, ainda, eu penso que está relacionado à mesma coisa. Como tentei pensar nos últimos meses, me parece que você poderia falar do objetivo em direção ao qual a terapia se move, e acho que o objetivo em direção ao qual a maturidade se move em um indivíduo, como sendo um “tornar-se”, ou sendo consciente e aceitando aquilo que se é mais profundamente. Em outras palavras, isso também expressa uma confiança real no processo no qual nos encontramos, o qual não pode ser inteiramente compartilhado entre nós hoje.

BUBER: Talvez ajudasse se eu apontasse um problema que encontrei quando li exatamente esse seu artigo [Rogers: Huh huh], ou um problema que me veio [Rogers: Huh huh]. Você fala sobre pessoas, e o conceito de “pessoa” é aparentemente muito próximo do conceito de “indivíduo”. Penso ser aconselhável estabelecer uma distinção entre eles. Um indivíduo é somente uma certa singularidade de um ser humano. E ele pode se desenvolver somente através do desenvolvimento de sua singularidade. É isso que Jung chama de “individuação”. Ele pode tornar-se mais e mais um indivíduo sem tornar-se mais e mais humano. Eu tenho [Rogers: Huh huh] muitos exemplos de homens que se tornaram muito, muito individuais, muito distintos dos outros, muito desenvolvidos em suas particularidades sem ser, de maneira alguma, o que eu gostaria de chamar um homem [Rogers: Huh huh]. Indivíduo é somente esta singularidade, capaz de ser desenvolvido e por aí afora. Mas pessoa, eu diria, é um indivíduo vivendo realmente com o mundo. E com o mundo, não quero dizer no mundo [Rogers: Huh huh], mas exatamente em contato real, em real reciprocidade com o mundo em todos os pontos nos quais o mundo pode encontrar o homem. Não digo somente com o homem, porque às vezes podemos encontrar o mundo de formas outras que a do homem. Mas isso é o que eu chamaria uma pessoa e se eu posso dizer expressamente “sim” e “não” a certos fenômenos, sou contra indivíduos e a favor de pessoas [Aplausos].

ROGERS: Uhm, huh. Correto. [Aplausos]

FRIEDMAN: Nós temos razão em dizer que devemos muito ao Dr. Rogers e ao Dr.Buber por esse, esse diálogo único. É certamente único na minha experiência: primeiro, por ser um verdadeiro diálogo, diante de uma audiência e, eu penso que, isto se deve em parte pelo que eles desejavam nos dar e nos deram e, em parte, por que vocês [a audiência] tomaram parte, algo como, um triálogo, ou me acrescentando, um, um quadriálogo, no qual vocês participaram silenciosamente [Aplausos].

Nota Biográfica:

Mordechai Martin Buber (1878-1965) nasceu em Viena e foi educado na “polaridade existente entre o ocidente e o oriente”. Teólogo, filósofo e escritor; desenvolveu sua “filosofia dialógica” descrita em uma obra que alia filosofia e teologia. Grande divulgador do Hassidismo e do Judaísmo, Buber publica em 1913, Daniel (ainda inédito no Brasil), mas ficou mais conhecido por seu livro Ich und Du (Eu e Tu, São Paulo: Centauro). Possui ainda numerosa obra em temas que tocam e influenciam a sociologia, psicologia e antropologia, vários deles traduzidos para o português: Do Diálogo e do Dialógico (São Paulo: Perspectiva); Eclipse de Deus (Campinas: Verus); Sobre Comunidade (São Paulo: Perspectiva); O Socialismo Utópico (São Paulo: Perspectiva); As Histórias do Rabi Nachmann (São Paulo: Perspectiva); A Lenda do Baal Schem (São Paulo: Perspectiva) eHistórias do Rabi (São Paulo: Perspectiva). Buber é considerado alicerce e suporte filosófico para numerosas práticas clínicas e referência obrigatória quando o tema é “diálogo”.

Carl Ramson Rogers (1902-1987) era psicólogo, humanista e cientista brilhante. Criador da “terapia centrada no cliente”, fez com que seu pensamento transcendesse as fronteiras da clínica psicoterapêutica, constituindo-se nos mais diversos campos de aplicação. Com isto, criou os “Grupos de Encontro”, o “Ensino Centrado no Estudante”, até sua abordagem ser conhecida por Abordagem Centrada na Pessoa. Seu interesse por Teologia se deve ao fato de haver seguido cursos no Union Theological Seminary, onde Tillich lecionou, entre 1924 e 1926, de onde migra para o Teacher’s College da Columbia University. Grande parte de sua obra está traduzida para o português, com destaque para seu livro mais conhecido Tornar-se Pessoa (São Paulo: Martins Fontes). Temos ainda as seguintes traduções: Grupos de Encontro; Psicoterapia e Consulta Psicológica; Sobre o Poder Pessoal; O Tratamento Clínico da Criança-Problema e Carl Rogers. O Homem e suas Idéias (pela editora Martins Fontes, São Paulo); Um Jeito de Ser e A Pessoa como Centro (pela E.P.U.); além de Em Busca de Vida(Summus); Quando Fala o Coração (Vetor); Novas Formas de Amor (José Olympio); Abordagem Centrada na Pessoa (Editora da UFES); O Homem e a Ciência do Homem; Psicoterapia e Relações Humanas e Liberdade para Aprender (Interlivros) e Liberdade para Aprender em Nossa Década (Artes Médicas).

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COISAS QUE TENHO APRENDIDO (parte II)

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COISAS QUE TENHO APRENDIDO (parte II)

Como defendi em muitos artigos e defendo vigorosamente em minha vida cotidiana e banal, a generosidade e a gentileza devem ser palavras de ordem. Dizer bom dia, boa tarde, boa noite, sorrir, acenar, falar obrigado e por favor, pronunciar um elogio sincero fazem bem para os outros e para nós mesmos. Eu sou assim e ponto.
Por outro lado, paciência tem limites e bondade não é sinônimo de burrice. Nem compreensão que ultrapasse a explicação 3. Ás vezes é preciso mandar ir à merda mesmo, alto e em bom som caso a pessoa em questão não escute direito ou tenha problemas para abstrair.

Ninguém é obrigado a pensar como ninguém, mas ninguém precisa destilar suas verdades como o mais vil veneno.

Ninguém é obrigado a simpatizar com ninguém, mas ninguém tem o direito de jogar tal antipatia na cara dos outros. Mas se por acaso alguém desrespeita a opinião alheia, dá um show de antipatia ou esculhamba por falta de coisa melhor para fazer ou simplesmente para se sentir menos péssimo consigo mesmo, deve preparar-se para ir à merda. Repeitar o que o outro quer, as vezes pode ser produtivo e evitar muitas coisas … assumir suas cagadas idem!

vai-a-merda-mas-com-todo-o-respeito

Muita gente acha que é falta de educação dar respostas malcriadas para gente sem noção, que se sente dona da verdade, que quer convencer os outros com argumentos baixos, que finge não entender para criar polêmica.

Chega a subestimar as regras óbvias de que 2 +2 são 4…. Ah! Mas só para ele pode ser relativo…. Acho que a pessoa perde o direito de ser tratada com educação quando ela é propositadamente idiota. O que tem demais assumir seus gostos e diversões?

Infelizmente, algumas pessoas param de encher o saco apenas quando são tratadas com firmeza e um pouco de ironia. Caso contrário continuam se achando as maravilhosas do pedaço. Absurdamente tecnológicas e ainda não suportam “discutir” … Acham-se poderosas e assertivas por dizerem palavras ofensivas.

Para mim estas pessoas inconvenientes, pretensiosas, que vomitam suas lindas verdades sem filtros têm preguiça mental porque discordar com classe e educação exige um trabalho intelectual muito mais elaborado e cuidadoso do que simplesmente exibir o seu acervo de grosserias.

Mandar ir à merda não significa necessariamente usar estas palavras. Ás vezes mandamos à merda com um olhar de desprezo, com uma resposta irônica ou apenas com um constrangedor silêncio. Um e-mail não respondido, um convite não aceito podem ser formas bem eloquentes de mandar ir à merda. Não quero dizer que toda vez que não respondem a um e-mail nosso, estão nos mandando ir à merda. Às vezes a pessoa em questão não respondeu porque está num mau momento. O mesmo se refere a convites. Mas quando alguém começa a nos evitar de forma sistemática, ela provavelmente está nos mandando ir à merda. Às vezes com motivo, às vezes sem motivo. Não entrarei nesta questão.Ontem mesmo me mandaram. Curti.

O que desejo ressaltar é que não precisamos engolir tudo. Não precisamos levar na cara e achar normal. Ninguém é saco de pancada de ninguém. E se alguém se sente no direito de transformar os outros em sua válvula de escape para o estresse do dia a dia , mande à merda sem a menor cerimônia.

dedo

Digo mais: quando o idiota em questão for você mesmo, mande a sua insegurança e os seus traumas e manias irem à merda também. Seu lado medroso está te privando de um prazer delicioso? Mande-se à merda! As suas manias estão roubando o seu tempo livre e o seu bom humor? Mande-se à merda! O seu passado triste está atrapalhando o seu presente? Mande-se à merda juntamente com quem te ajudou a ferrar o seu passado! Pode ser bem divertido! Sei la…. só acho.

PS: Aos que se consideram “referenciados” saliento que este é um texto de pura “alegoria”, nenhuma apologia. ok.

Paixao-e-odio

Vamos falar sem orgulho ?!

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Vamos falar sem orgulho ?!

O orgulho foi, até pouco tempo atrás, ignorado até pela Psicologia, então, não se preocupe em quantas vezes você o engoliu a seco e em doses cavalares. Durante a maior parte de sua existência, o orgulho não era visto como uma emoção e, hoje, ele pode ter significados fortes e distintos em cada ser humano.

Orgulho dentro da língua portuguesa possui dois sentidos totalmente contrários um do outro: um faz referência à dignidade, ao respeito, enquanto o outro ao estado emocional desequilibrado que compromete toda uma imagem social. E é, no limite dessas definições, que o sentimento torna-se defensor ou agressor da alma humana.

Há quem considere o orgulho um ato de justiça para consigo mesmo, um reconhecimento, um mérito. Devendo existir com o único objetivo da autopromoção.

Nesse caso, o orgulho pode ser facilmente confundido com a vaidade e com a soberba. Fernando Pessoa, classifica esse tipo de sentimento como natural do homem: “[…] o orgulho é a consciência (certa ou errada) de nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência de nosso próprio mérito para os outros.

Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, por ser ambas as coisas vaidoso e orgulhoso, pode ser – pois tal é a natureza humana – vaidoso sem ser orgulhoso.” (Obra em prosa – Ideias estéticas da literatura/literatura europeia – Editora Aguilar, Rio de Janeiro, página 312).

Nesses casos, a vaidade caminha de mãos dadas com o orgulho, o casamento perfeito, já que um fortalece o outro: “muitos homens têm um orgulho que os leva a ocultar os seus combates e apenas a mostrarem-se vitoriosos” (Honoré de Balzac). Jane Austen, autora de “Orgulho e Preconceito”, afirmava que: “a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. Sei lá.. não fui eu quem disse…

O orgulho relaciona-se mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.” Por outro lado, há quem considere o orgulho uma defesa da própria alma, que permite ao homem a não se sujeitar a situações desgastantes. Entendem o orgulho como um sentimento bom e que não deve ser visto como pejorativo ou destruidor.

Admitem que o orgulho sucede de uma dor e que, indiferente da causa da mesma, o sentimento tenta neutralizar a dor causada por algo maior que ele. O orgulho nesse caso é visto como um sentimento nato de defesa. Não servindo apenas para sobreviver a perigos físicos, mas para prosperar em circunstâncias sociais complicadas, de maneiras nada óbvias.

Voltaire tinha um dos pensamentos mais completos do tema: “O orgulho dos pequenos consiste em falar sempre de si próprios; o dos grandes em nunca falar de si.” O orgulho aqui, não tem relação nenhuma com os sentimentos inferioridade ou autodepreciação. É um senso de respeito por si próprio, no estilo “não sou melhor que você, mas não admito ser humilhado”.
O grande problema encontrado nesses casos é encontrar pessoas que estejam dispostas a entender isso.

Algumas pessoas costumam entender que orgulho é algo ruim, narcisista.

Eu pessoalmente confesso que é bem difícil o exercício de tal emoção…. e quando lidamos com alguém que está inflado dela…. putz… que vontade mandar ….. (…) enfim…. Tudo na vida é questão de se propor a aprender… com o que parece “bonito” e o não tão bonito em nós…. exercer a função de cada emoção (mesmo aquelas que pensamos serem horríveis em nós) é uma arte a ser manifestada …..
Em doses homeopáticas podemos comparar o amor e o orgulho similarmente a um remédio: na dose certa restabelece o equilíbrio emocional, em quantidades exageradas leva à loucura e, provavelmente, à morte.

A velocidade do nu …

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A velocidade do nu …

 

Algumas pessoas têm fotos de pornografia no celular. Eu tenho comidas Gosto de ver comida e, às vezes, gosto de enviar fotos de comidas para meus melhores amigos. Também gosto de desenhar vestidos. Me acalma e me faz sentir bem quando estou doente.

Gosto do cheiro da cor laranja no papel.

Gastar um giz de cera laranja, bem laranja, no papel é uma delícia.

Gosto de cactos e pequenas plantinhas suculentas. Gosto de cafés, e barulho de vento.

Gosto de morder borrachas.

Quando era pequena, minha mãe advertia sobre o perigo de comer borrachas. Aprendi que borrachas não são comestíveis.

Aprendi também que continuo gostando de comer borrachas. Comer comê-las não, mas mordo-as todas.

São gostosas de enterrar os dentes e provocam um calorzinho bom nas gengivas.

Quer dizer, as crianças testam as coisas, experimentam, provam. Provar o mundo é uma delícia. Devíamos fazer o mesmo, confesso que ainda o faço.
Provo o gosto do café preto todos os dias.
Provo as manhãs com leitura e café preto.
Existe alguma coisa sempre nova no provar.
Não falo do provar que reprova, tampouco do provar restrito à novidade. Provo cafés a cada manhã. A cada manhã sou café e letras.
Minha lista de gostos me faz giz laranja a cada vez que cubro uma folha grande pressionando a cera no papel. Na verdade gosto do cheirinho do giz laranja.
Nossas listas de gostos nos dizem aquilo que escolhemos para demorarmo-nos a cada vez que somos. Venho me perguntando: sobre o que temos escolhido nos demorar?
A escolha de demorar-se em algo também é uma escolha de liberdade. Quero dizer com isso que o tempo utilitário serve à velocidade, e o tempo de demorar-se não serve a nada nem a ninguém.
Ele demora sobre as coisas, ele experimenta a margem mole e porosa das coisas. A escolha de demorar-se é uma escolha de liberdade porque é uma escolha marginal.
Demorar-se sobre as coisas é poder transitar pela margem das coisas.

O tempo de demorar-se é brincante por poder entrar e sair do que são as coisas, por conhecer o nada que as coisas são.

Mas falemos sobre a pornografia partilhada…
O que me instiga é isso que praticamos e denominamos partilha. Então acho que não é antes o conteúdo, mas, sim, o tempo.

Me parece contraditório que o tempo da partilha seja veloz. E aí entendo a curiosidade pelo conteúdo. Imagine um encontro entre pessoas na rua. Cada um de nós pode pensar em formas diferentes de um encontro acontecer.

Penso em dois corpos que se abraçam longamente… alguém morreu ou são namorados! Ou talvez tenham saudades um do outro. Mas, quem sabe ainda, gostem de se abraçar e dizer versos recém lidos na condução?

Penso em corpos que se esbarram, _ “Desculpa, foi sem querer! ” Sorriem sem graça e seguem, cada qual, seu caminho. Penso em encontros de raiva, tristeza, felicidade, dor, mania, paixão, último encontro, encontro inesperado, primeiro encontro, encontro de negócios, de reaproximação.

Para cada encontro um tempo. E é no tempo que se demora, onde posso fazer lugar de partilha com o outro.

A troca de qualquer conteúdo pelos celulares modernos é veloz. Assim que recebo uma fotografia do mikey pelado ou o que quer que seja, eu envio imediatamente para os meus contatos. E eles recebem o mikey pelado, ou o que quer que seja, aonde quer que eles estejam, cozinhando em casa, trabalhando, trocando fraldas, transando ou chorando em um velório.

Bem, para mim ficamos realmente nus quando nos demoramos onde gostamos…

O tempo longo me parece ter mais afinidade com partilhas.

O problema em recebermos fotos de pessoas nuas pelo celular não são os corpos das pessoas que estão nuas, sejam eles jovens, velhos (sim, os corpos envelhecem e não há nada de feio nisso), gordos, tatuados ou magros. O problema é nos fazermos disponíveis a todo e qualquer momento.

É a chatice da esvaziada e repetida história, sobre “vazar alguém pelado”, sempre tomando espaço nas manchetes dos jornais. Outra pessoa pelada, mas que raios! Será que não cansamos de ver bundas?! Não interessa se é uma bunda famosa ou não, uma bunda é sempre uma bunda, todo mundo tem bunda. O problema é que aquilo que nos choca ainda é a bunda, e não o abuso sobre expor-se o outro contra sua vontade. O problema é a falta de cuidado ético consigo e com o outro.

O descuido acontece antes, ao apressarmo-nos, sempre nos colocando na frente do outro. Ocupamos abusivamente todos os espaços de privacidade e solidão.

Espaços necessários para que o outro permaneça existindo outro, na sua diversidade e nas suas próprias escolhas. Antes de encontrar o outro, eu saboto o outro, eu vazo o outro, arremesso coisas indiscriminadamente em cima dele. Eu arremesso o outro.
Venho me perguntando sobre o que temos escolhido nos demorar. E com essa pergunta, acabam surgindo sempre as mesmas figuras repetidas e compulsivamente gastas, como a sensação de gozo enfraquecido pelo homem que bate punheta 50 vezes por dia.

Não é fácil sair da prática da velocidade, o círculo compulsivo de funcionamento fácil nos faz acreditar na hierarquia da velocidade sobre o tempo. Aquilo que temos escolhido nos leva a pensar sobre nossas práticas de liberdade. Aquilo sobre o que escolho me demorar fala dos sentidos que trago junto a mim.

Aquilo que escolho indica o que não escolho, tudo aquilo que não escolho fala da minha liberdade enquanto potência criativa em formas de existir. Escolho comidas, borrachas de comer, cheiros de sabonetes de frutas.

Escolho não querer receber mensagens 24 horas por dia. Escolho o gosto de escrever com lápis e papel porque me dá prazer. Escolho questionar se aquilo que escolho foi realmente escolhido por mim. Escolho o tempo de parar, escolho a urgência de nos determos sobre o tempo de demorar-se. Escolho um olhar mais demorado e lindo depois de fazer amor.

Patinho feioso…. que lindo és tu !

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Patinho feioso…. que lindo és tu !

Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente dos demais filhotes, o pobre é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e outras aves. Um dia, cansado de tanta humilhação, foge do ninho. No caminho uma família de camponeses encontra o “patinho” feio e ajuda-o a superar o inverno. Quando finalmente chega a primavera, a família devolve-o para o lago, onde ele abre as suas asas e se une a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos. (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Patinho_Feio). Esse é o resumo do famoso conto infantil escrito por Hans Christian Andersen e publicado pela primeira vez em 11 de novembro de 1843.

Toda família, toda sociedade e todo o mundo tem um denunciante. São aqueles indivíduos que sentem, inconscientemente, que sua família tem algo errado, algo diferente, que alguma ou várias peças não se encaixam. Do denunciante não foi conseguido esconder esse conteúdo. Mas alguns membros familiares também não sabem que escondem. Como disse, é inconsciente. O corpo do chamado patinho feio sente e denuncia dentro dele mesmo as dores familiares em forma de doença física e mental.

Então, em vez de ser o indivíduo que percebe o que está acontecendo, ele passa a ser para a família apenas o que adoece. E doente não tem força, é sinônimo de fragilidade, não serve pra muita coisa. Logo, toda a família do patinho feio encontra uma forma de depositar suas dores e suas angústias nele. Quem nunca ouviu as clássicas frases “Sou assim por culpa dele”; “Ele é a ovelha negra da família”; “Olha o que você está fazendo com todos nós?”.
Jean-Paul Sartre, filósofo francês, escreveu a famosa frase “O inferno são os outros” e acrescento … isso cabe aos que tem de fato uma incrível dificuldade para lidar com o Outro… para explicar que a culpa é sempre do outro, nunca de quem se diz.

No caso da família, esta se apropria dessa frase e pensa: “Os doentes são os outros”. O patinho inconscientemente assume a responsabilidade de que todas ou a maioria das angústias familiares são geradas por culpa sua. Ele é o estranho. Na psicanálise chamamos o patinho feio de paciente identificado.

Se o paciente identificado buscar ajuda terapêutica, talvez terá uma chance de “abandonar” esse papel imposto e aceito por ele. Aos poucos o patinho feio poderá entender que ele não é tão feio assim como o pintam e começa a perceber que os outros membros da sua família também são problemáticos. Como na história de Hans, quando o patinho foge da sua família e sai do “lugar de doente” , ele percebe que é diferente, mas diferente no sentido positivo. Ele é um cisne em crescimento. Ele não é o que a família dele disse ser.

Mas ainda há outro problema. Quando o paciente identificado começa a recuperar sua saúde mental, a família entra em crise pois começa a perceber que o problema também está em todos os membros. Então, sem perceber, começam a atacar o patinho feio para voltar para seu lugar de origem pois quando ele era o doente tudo estava em harmonia, tudo estava no seu “devido lugar”. Se o paciente identificado resistir, ele não voltará para o seu posto instituído, pois entendeu que agora está em um lugar melhor. Mas é claro que é um processo doloroso, pois nas relações familiares estão envolvidos vários sentimentos como amor, ódio, alegria, tristeza. E nessa ressonância de forças… o terapeuta bem… rs ele deve estar preparado para isso , ao menos supõe-se.

Se a família toda buscar ajuda terapêutica, o resultado poderá ser melhor ainda. Pois os membros da mesma entenderão que todos têm suas neuroses e principalmente responsabilidade por elas.

Terão a oportunidade de re-significarem seus sentimentos e práticas no ambiente familiar, podendo até melhorar a qualidade de vida de todos os membros. É um processo lento, mas vale a pena.

Admitir seus erros e suportar suas angústias é um ato de coragem admirável. Ninguém é tão bom, maduro e bem resolvido como pensa. Geralmente, só nos aguenta quem nos ama de alguma forma. Como Hans nos ensina, o que precisamos às vezes, é de um lugar que tenha pessoas que nos entenda e nos acolham suficientemente bem no inverno. A família pode ser esse lugar ou não … no caso alguma outra “família” poderá ser eleita e quem sabe…. seja o melhor e mais aquecido dos invernos…. Se no final acaba tudo bem, de fato não sabemos, afinal…. é vida que segue …

patinho feinho

Bauman e a vitrine

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Bauman e a vitrine

BAUMAN E A VITRINE

Bem, hoje estou para pensar com Bauman … sei la… pertinente ou não…. repetindo ou não… há sempre um novo olhar …

Bora consumir? É o apelo das vitrines …. mas vamos olhar de perto … bem, todavia, pertencer ao clube dos consumidores tem lá suas exigências, sendo preciso estar adequado a elas. O que acontece quando as pessoas também se transformam em mercadorias, precisando se vender e correndo o risco de serem indiferentemente descartadas? O que acontece quando essa lógica chega aos relacionamentos interpessoais, através de aplicativos como o Tinder?

Na sociedade de consumidores, consumir não é mais uma opção. O consumo tornou-se uma exigência, uma maneira de ter participação social ativa, de se tornar interessante para empregadores, amigos e parceiros em potencial. Como explicitou Zygman Bauman no livro Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria, os consumidores que têm o poder para exigir determinado produto ou tratamento do mercado são os mesmos que precisam se adequar a suas regras e tendências. Através de suas escolhas de consumo, os indivíduos da sociedade de consumidores também se vendem como mercadorias que precisam ser atraentes aos olhos de quem desejam atingir. Em outras palavras, eles não apenas pressionam o mercado para que produza bens que lhe agradem e lhe sejam úteis, mas também são obrigados a ser parte essencial do sistema consumista, no qual os próprios indivíduos precisam vender-se como desejáveis, valorosos, interessantes e atraentes.
Eis que surge, em 2012, um aplicativo para sistemas iOS e Androide chamado Tinder. O objetivo? Facilitar a vida de quem quer encontrar uma pessoa interessante para marcar um encontro – ou pelo menos essa é a premissa. As motivações dos usuários variam entre manutenção da vaidade, diversão, cura de término de namoro, sexo casual e até encontrar o amor da sua vida do outro lado da tela.

Mas o que isso teria a ver com a relação entre consumidores e o mercado? Simples. O Tinder nada mais é do que uma gigante vitrine virtual, na qual os usuários se transformam em mercadorias enquanto exercem a função de compradores. No aplicativo, milhares de indivíduos se expõe buscando atingir as pessoas que desejam, ao mesmo tempo em que selecionam que tipo de mercadoria querem consumir nessa mesma vitrine: alto(a), baixo(a), sarado(a), estrangeiro(a), da mesma cidade, moreno(a), loiro(a) e assim por diante.
Sabendo que estão sendo avaliados, cada usuário monta seu perfil de modo a torná-lo o mais atraente possível para o tipo com quem busca se relacionar. As fotos, as frases de apresentação, tudo é pensado de modo a conquistar o maior número de matches possível, de quem interessa. Quanto mais opções, melhor. Afinal, um dos princípios do mercado é a abundância e um de seus requisitos mais importantes é a seletividade.

De trinta opções, escolhem-se dez que mais agradam. Desses dez candidatos, alguns serão eliminados para que sobrem apenas os mais qualificados para agradar o usuário. Os mais bonitos, os com melhor papo, os que moram nos lugares mais legais, cada um tem sua própria ordem de preferência. O fato é que, ao final do processo seletivo, sobram umas três ou quatro opções que, seja virtualmente, seja no olho no olho, terão de provar serem produtos que valem todo o investimento emocional e físico que o usuário terá que dedicar a elas. Toda essa triagem é feita em minutos, tão naturalmente que sequer a percebemos.
A comparação tão fria entre o sistema consumista e as relações interpessoais parece exagerada, mas, na verdade, não é. Arranjar um emprego, conquistar notoriedade, conseguir um visto, conviver com pessoas interessantes, criar um perfil virtual; todas essas atividades, tidas como banais pela sociedade consumidora, estão impregnadas por valores de mercado como diferencial competitivo, desempenho, estratificação, entre outros.

Em grande parte, isso se deve ao incessante trabalho da publicidade para normalizar a existência de valores de mercado entre as atividades do dia a dia. Em outras palavras, a publicidade, através de suas imagens, discursos e anúncios, torna normal o fato das vidas contemporâneas serem permeadas – e, em muitos aspectos, regidas – por valores do mercado capitalista. Através da repetição dessas mesmas imagens e discursos, diferentes anúncios de diferentes marcas ensinam ao indivíduo consumidor que é normal fazer a barba para uma reunião importante, vestir-se melhor em ocasiões especiais, trocar o carro por seu modelo novo, ser ocupado, saber administrar o próprio tempo, admirar uma pessoa que cuide da aparência e assim por diante. No fundo, essa supostamente inocente rotina reflete características e interesses de mercado, agora transformados em valores indispensáveis: ambição, flexibilidade, adequação, qualificação.
É um mecanismo tão bem amarrado que se insere mesmo nas esferas mais íntimas, inclusive nos relacionamentos. Assim como novos produtos estão sempre sendo lançados em substituição aos antigos e o descarte de mercadorias é cada vez mais livre de remorso ou reflexão, a necessidade de se envolver com outros parceiros e experimentar coisas novas é latente e perturbadora. Se o olho no olho nos obriga a ser mais delicados – diante de reações que não podemos controlar ou prever na pessoa diante de nós –, o virtual permite que nos afastemos, ignoremos ou mesmo partamos o coração de alguém a distância, sem ter que lidar com a incômoda sensação de perceber que aquela pessoa é de carne e osso.

Como consumidores mimados (usando aqui o termo do próprio Bauman), os usuários do Tinder descartam outros usuários pelos menores caprichos: uma pinta, uma frase ruim, o cabelo naquela foto. Mas até aí, convenhamos, trata-se de um aplicativo para proporcionar encontros rápidos, sendo que a maioria dos casais não chega sequer a se encontrar mais de uma vez. Assim, a triagem digital, dentro da lógica na qual estamos atualmente inseridos, faz sentido. O problema é quando esse comportamento não muda fora do ambiente do aplicativo. Não há transição entre o usuário e o sujeito com uma história e sentimentos. Existe apenas a vontade de saciar um desejo de consumo, mesmo que seja o de encontrar o amor da sua vida. Ao menor sinal de que a pessoa não corresponde às suas expectativas, mesmo em coisas pequenas, nosso aventureiro de Tinder termina o encontro, vai para casa, acessa sua conta e já procura um candidato melhor – sem necessariamente notificar o candidato descartado de que ele perdeu a vaga.
Afinal, se a mercadoria veio com defeito, a culpa é do fabricante. Ele tem sorte de não ser processado (ou difamado) por propaganda enganosa.
rs.

Do que escorre entre os dedos …. ou teclas … ou toques …

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Do que escorre entre os dedos …. ou teclas … ou toques …

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.”
Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar. Não me atrevo a ainda a discutir a sua obra, tamanha contemporaneidade que vislumbro….. mas a alguns entendimentos me atrevo:
O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo. Ainda aqueles que se dizem mais “discretos” acabam se expondo de forma a escorrer pelos dedos… pelo público …. e imaginemos o que lhe acontece em privado….. ou não….

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Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida. Mas muitos sentem só estarem vivos desta forma…. ainda que se arrastem feitos zumbis incapazes de lidar e olhar para suas feridas diárias… porque, vamos combinar , o dia a dia dói pra kct (desculpem o termo “chulo) .

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Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

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O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angustia. Filosoficamente a angustia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

Eu acho que me desloco, não concluo…..

Coisas que tenho aprendido ….

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Coisas que tenho aprendido ….

Desde crianças, criamos expectativas de que nossas necessidades sejam aliviadas e de que nossos desejos sejam atendidos por quem nos rodeia. ( E isso é fato, precisamos do outro).  Parece fazer parte de nossa natureza acalentar a esperança de que tudo vai dar certo, de que as pessoas nos farão felizes, de que o amor perfeito virá até nós e completará o que nos falta.  ( coisas da relação mamãe bebê e ainda assim …. uma relação de mãe e filho saudável… desde muito cedo deve gerir não só o prazer, mas também o desprazer, a falta “presente”, desde cedo a criança precisa lidar com a frustração de que o outro não suprirá todos os seus desejos…. )  Infelizmente, a vida tende a nos lembrar de que teremos um longo caminho de tombos e de decepções pela frente, pois nada é fácil, nada vem fácil. Cabe-nos não esperar muito dos outros e agirmos por conta própria.

Não semeie expectativas exageradas em relação aos caminhos que percorre. ( falei exageradas pois inevitavelmente nós a criamos sim ). Todos os dias nossa jornada estará sujeita a ventos e trovoadas, a descaminhos escuros que nos derrubarão, arrefecendo-nos os ânimos. Problemas fazem parte da vida de todos nós e sua resolução dependerá da lucidez de nossos sentimentos em relação ao que deve ser feito, repensado e mudado. Deveremos estar preparados para os reveses que nos adentrarão todos os espaços, combatendo-os com equilíbrio, sempre junto aos nossos queridos.

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Não acalente esperanças de que as pessoas serão gratas pelo que você faz por elas, de que será reconhecido pela sua dedicação, sua fidelidade, ou seu empenho em deixar o outro feliz. Muitas delas simplesmente esquecerão tudo isso num piscar de olhos, outras lhe cobrarão ainda mais, enquanto algumas o trocarão por novas amizades, novos companheiros. Cada um dá o que tem, já diz o senso comum, por isso devemos fazer o bem sem condições e sem esperar nada em troca. (Mas vamos combinar que este é um exercício muito difícil….. a gente espera sim….. o amor por ex. …. quase sempre vem com algumas “condições”) …

Não espere que o outro vá mudar, que um dia ele irá acordar do jeito que você quer – isso não existe longe dos enredos de ficção. Ou aceitamos as pessoas como elas são, valorizando em cada uma delas aquilo que têm de melhor e abrindo concessões que não firam nossos princípios e nossa dignidade, para aceitá-las em nossas vidas, ou entraremos em relacionamentos desgastantes e permeados por frustrações e discussões inúteis. (Coisas que tenho aprendido …. )

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Não aguarde que a vida traga até você as oportunidades que contribuirão aos seus avanços pessoais e profissionais. Nada costuma cair no nosso colo assim, como num passe de mágica. Aja em favor de si mesmo, correndo atrás daquilo que você quer, estudando, projetando, atualizando-se, relacionando-se com as pessoas, harmonizando-se com o mundo à sua volta, de forma que os ambientes por onde transitar sejam repletos de portas a serem abertas e de gente que torce por você.

Não nutra desejos de ser aceito por todos, de poder viver a seu modo, de acordo com o que quiser, sem ser mal interpretado ou incompreendido. Encontraremos muita intolerância pela frente, estaremos sujeitos a julgamentos alheios o tempo todo, muitos deles vindos de pessoas que pautam seus argumentos sobre pontos de vista unilaterais, preconceituosos e cruéis. Conserve a fidelidade à essência de suas verdades, dê importância a quem tem importância e caminhe junto a quem estiver ao seu lado com afeto sincero.

Penso que, obviamente, devemos idealizar um futuro de realizações que nos levem à satisfação pessoal e profissional, para que tenhamos sempre algo por que lutar diariamente, ou então permaneceremos presos ao comodismo incômodo, ao amortecimento de nossos sentidos. No entanto, é preciso que adotemos uma postura ativa, impulsionada por idealizações passíveis de serem alcançadas de acordo com o que temos e somos, sem abrir mão de nossas verdades.

Porque esperar do outro aquilo que está dentro de nós fatalmente nos trará uma série de decepções que em nada nos acrescentarão. Na verdade, nós é que somos os responsáveis pela nossa vida, pelas nossas dores e alegrias, ou seja, podemos esperar, sim, mas de ninguém mais do que de nós mesmos.
E ainda quanto as expectativas…… bem…. o melhor seria não te-las, mas ao estar com e para o outro no mundo sempre ela dá uma chegadinha … a grande sacada é transforma-las em projetos… que possam ser cumpridos…. ao outro cabe o prazer de seguir a caminhada de mãos dadas … nada mais……

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Das vírgulas….

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Das vírgulas….

As vírgulas existem para alguns…

Certamente quem se atreve a percorrer os olhos por estas linhas, deseja encontrar uma maneira de apaziguar suas angústias relativas à falta de respostas coerentes para o término de um ciclo.

O fim de uma etapa é sempre o momento de repensar os objetivos que norteiam as atitudes do indivíduo. Será trabalho, relacionamento amoroso, mudança de casa ou cidade e, por que não, país. É um instante de tirar o corpo e mente do piloto automático e procurar governar com sabedoria a próxima viagem para que a parada seja agradável.

E se não houve tempo para refletir, agora haverá de sobra. Você se cobrará por uma resposta de sua intuição, do coração, ou de sua razão. Pode ser uma junção de argumentos também, não importa, apenas que o resultado satisfaça o vazio momentâneo daquilo que partiu, daquilo que findou.
Amizades que deixaram somente boas lembranças, o emprego que te iniciou ao mercado de trabalho, a cidade que te acolheu como cidadã nata, a família que te adotou como parte integrante.

Para quem sofre por antecipação, o sentimento do futuro adeus invade o coração, a lembrança vira saudade de algo que nem mesmo chegou ao fim e os dias que ainda restam ficam sem ser vividos como deveriam. Não há fórmula para viver, mas eles ficam esquecidos porque o dono do livre arbítrio não consegue compreender o quão preciosos são.

Com o tempo, percebe-se que não há adeus. As pessoas ainda estarão por aí nas esquinas dos encontros, nos barzinhos noturnos, nos supermercados, na cidade que pode ser um bom programa de férias, contando suas histórias pelas fotografias do Instagram.

O aprendizado não será deixado no passado, ele será carregado e aprimorado. Lá na frente, em meio aos chamados de vó ou vô, você se recordará em flashes do pontapé inicial, do ponto de partida, dos queridos que te incentivaram, das boas gargalhadas, das viagens, dos apuros e terá a oportunidade de agradecer. Quando houve desânimo, você sabia que podia contar com gente do bem e alegre; quando houve orgulho, você sabia que teria quem lhe trouxesse de volta à humildade.

Crias das próprias escolhas e decisões, você saberá valorizar e ver com olhos de contento tudo o que lhe foi emprestado. Entre cidades, pessoas e empregos, um traçado foi percorrido. Entre curvas e retas, uma história foi narrada. Entre vírgulas, ponto e vírgula ou reticências, um indivíduo transformou-se. Entre pausas curtas e longas, entre respiros e suspiros, aconteceu: houve uma sucessão de dias e noites com pitadas de emoções dos mais variados tons. Até as noites em claro, o peso a mais, ajudou a correr atras do seu equilíbrio.

Fimdeciclo

Mea Culpa …

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Mea Culpa …

Mea Culpa …

Numa palestra sobre conceitos de neurociência, em que a cientista demonstrava a localização de emoções básicas em áreas do cérebro humano, uma mulher da plateia lança a seguinte pergunta: E a culpa, onde fica?
Reflexiva, a palestrante rebate: Boa pergunta… Ainda não sabemos!

mea culpa 3
Sentimento complexo, a culpa parece derivar de uma equação cujo produto é o sofrimento do próprio sujeito. Em síntese, é direcionar a agressividade, algo primitivo do ser humano, contra si mesmo diante de uma situação que gera auto-recriminação.
Sem os recursos da neurociência e o empirismo da academia, Freud se propôs e responder à mesma pergunta em 1930, no livro O Mal Estar na Civilização. A publicação, pela forma que trata o tema, parece ter sido lançado neste milênio: culpa nunca foi tão difundida, tão óbvia e tão inerente àqueles que se sentem humanos. E é daí que precisamos partir e pensar: para sentir-se culpado, alguém ultrapassou aquilo que considera seus próprios limites.
Para simplificar o conceito de limites, podemos entender que são as rédeas introjetadas durante o desenvolvimento infantil para embasar nossos critérios de julgamento sobre as situações objetivas e subjetivas. As objetivas parecem mais simples: os limites impõem o princípio de realidade necessário para que o ser humano infantil reprima suas pulsões primitivas (entre elas, a agressividade) na adaptação ao mundo do qual ele quer extrair valor e sobreviver. Já entre as subjetivas, há uma sombra que a neurociência ainda não pode responder. Mas Freud explica: o mesmo mecanismo que impõe o princípio de realidade conduz o ser humano para além do seu princípio narcísico de satisfação total (o princípio do prazer). Esse mecanismo funciona como um policiador das nossas atitudes, pronto para dar uma dura na gente.

 

 

Mal Estar na Civilização retoma conceitos fundamentais da obra de Freud e relaciona o sentimento de culpa às pulsões e ao recalque. O recalque é aquilo mesmo que diz o jargão popular brasileiro: você vê no outro, queria ter, queria executar, queria expressar… mas um limite auto-imposto te impede. E aí você inveja quem não se recalcou! O recalque é produto da sua auto-censura, construída com base numa referência de valores instaurados a partir da sua vivência. Esses valores são o conjunto de leis de uma sociedade, a religião, a família, os códigos de um grupo, que permitem o convívio de seus membros em troca do recalque daquilo que não é adequado para o bem maior.
E de onde vem a culpa? Vem do fato de nem todos os valores estarem em sintonia com suas pulsões primitivas – entre elas, a agressividade. Ao tomar uma atitude da qual posteriormente você sequer se reconhece como autor (tipo brigar com o chefe ou não resistir a uma grande barra de chocolate em plena segunda-feira), você sabe que se comportou como a criança que todos nós ainda carregamos no interior. E quando essa criança é atendida em seu desejo infantil, a mensagem que nossa mente pode nos enviar é que ultrapassamos os limites introjetados. É aí que vem a culpa: as pulsões agressivas deixam de ser dirigidas ao outro e são direcionadas para nós mesmos de forma torturante. Fazemos isso de forma inconsciente.
Livrar-se da culpa requer mais que dissecar o sentimento na área do cérebro. Para livrar-se da culpa também ainda não tem remédio. Ter consciência das atitudes que te fazem sentir culpado é um bom começo para dosar o quanto de agressividade você vai querer direcionar contra si mesmo para punir-se pelo fato de não estar atuando em sua própria versão mais idealizada. Culpar-se menos, então, não é um processo automático de auto-ajuda. É um projeto de auto conhecimento para dosar essa composição inerente àqueles que se permitem ser humanos e conviver em grupo.

Torna-te quem tu és……