Arquivo da categoria: Vontade de Potência

A des- razão de olhar o outro

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A des- razão de olhar o outro

Ele me olhou, em um momento rápido, cambaleando, como uma valsa a qual seu parceiro de dança é a própria des-razão, a oposição vívida do super-homem pós-moderno, dono de nada e ninguém, sem posse. Seu olhar, cruel e perverso, escondiam na realidade o medo. Medo da morte, medo de perder o que de valioso apenas nasceu consigo e em sua trajetória, foi a única coisa que conseguiu trazer consigo. Não era sua roupa ou seu rosto, mas sua existência e desejo por continuar a existir.

Em meio ao odor de cachaça e sujeira, um súbito momento de estranheza pela presença de um outro, bem vestido. Meu instinto lhe diz que para sobreviver, manter a postura de não existência é a melhor opção, o jogo de poder é o que me resta: “sou coitado, dê-me salvação”…

Ele me olhou, em um momento rápido, andando reto, passos firmes, como um predador urbano, preparado para pisar em sua caça, no menos adaptado socialmente, a oposição viva do ser da criação, padronizado, oposto do animal potencial, dono de si e de todos, dono do mundo.

Seu olhar, cruel e perverso, escondia na realidade o medo. Medo da morte, medo de perder o que de mais valioso, comprou com suor e sangue, suas posses, sua família e identidade; Seu Eu. Não era sua roupa ou rosto, mas sua existência e desejo por existir. Seu perfume importado e terno estranhavam a presença do outro, mal vestido. Meu instinto me diz para sobreviver, ignorar sua existência é a melhor opção, o jogo e poder é o que me resta, “sou salvador, dou-lhe sua salvação”.
Dou-lhe a esmola
Recebo sua esmola. Época de páscoa.

Sigo meu caminho, fujo a contrariedade da outridade, não me interessa ele, e a ele, eu não interesso. O reconhecimento do outro, não o outro que apenas me reproduz como sujeito, mas o outro em campo de valor distinto, em estilo diferente e em cronograma correspondente, ou mesmo um “não-cronograma”, ao ponto de não serem mais indivíduos de valor.

Se Deleuze e Guattari apontam a esquizofrenia como o ponto que rompe o capital – a funcionalidade do indivíduo – ele hoje adequaria o termo, pois todas as ‘esquizofrenias’ que rompem com a normalidade e chocam os territorializados a ponto de tornarem-se promotores, juízes e carrascos. A criticidade de si enquanto possibilidade é uma tarefa árdua, incômoda e dolorosa, requer compromisso, ética e acima de tudo, maturidade.

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Do efeito Pig “mau”leão …

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Do efeito Pig “mau”leão …

“O mito de Pigmaleão, como outros, traduz um elemento do comportamento humano: a capacidade de determinar seus próprios rumos, concretizando planos e previsões particulares ou coletivas. Em Psicologia deu-se o nome de Efeito Pigmaleão ao efeito de nossas expectativas e percepção da realidade na maneira como nos relacionamos com a mesma, como se realinhássemos a realidade de acordo com as nossas expectativas em relação a ela[5] .
Clemente de Alexandria relata outro mito parecido, de uma estátua de Afrodite em Cnido pela qual um homem se apaixona, e com quem ele tem relações sexuais[6] .
A versão mais antiga da lenda está em Ovídio, em sua obra Metamorfoses.[1] [carece de fontes] A lenda de Pigmalião tem atraído vários artistas. O nome da estátua, depois que ela vira mulher, Galathea, não é encontrado nos textos antigos, mas aparece em representações artísticas modernas do mito. Uma versão moderna da lenda é a peça de George Bernard Shaw, Pigmalião, ou My Fair Lady, em que, em vez de uma estátua transformada em mulher, temos uma mulher do povo transformada em mulher da alta sociedade. A peça é também um musical e um filme.” (Wikipédia)

pig male

Então vamos la…
Tempos atrás eu tentava sair de uma crise de identidade que me fazia sentir habitar sempre a pele de outro alguém. Entre pensamentos e leituras cheguei até o mito de Pigmaleão, que demonstra o poder da expectativa sobre o comportamento das pessoas. O Efeito Pigmaleão, também chamado de profecia auto-realizável, mostra o quanto o olhar, a expectativa e a ideia do outro, podem nos modificar. Profecias (e estereótipos) são impostos e repetidos até que o próprio sujeito se modifique, tornando-se aquilo que o outro acredita que ele é. Ao entender esse conceito passei a enxergar as profecias que me rodeavam e o quanto disseminar estereótipos pode nos levar a estar sempre preso a determinadas etiquetas. Se permitimos, somos engavetados.
Já me confundiram o sorriso pela bobeira, a falta de rispidez pela ingenuidade completa, o gosto lúdico pela infância retardatária. A crença nesses estereótipos se tornava tão grande que eu mesma, por algum tempo, passei a acreditar em cada alcunha que me era dada. Sentia o desconforto constante de saber, diariamente, que eu não fazia parte da casca que me era colocada. Quando as profecias impostas foram percebidas por mim, passei a desacreditá-las uma a uma e assim, elas já não eram mais passíveis de ser realizadas. Voltei a ver-me com olhos positivos, o que me abriu novamente o meu leque de escolhas e me possibilitou sair da situação de personalidade passiva, imposta pelos olhos de fora.

Ao perceber a insistência de expectativas externas que não condizem em nada com a pele que realmente habitamos, quebra-se o ciclo das profecias. Não nos tornamos mais aquilo que os olhos de fora tentam nos fazer acreditar que somos. Certo dia, uma pessoa incrível (coisa que penso estar longe ser) me disse em momento crucial: “Até quando você vai ser aquilo que acha que é sem tentar ser alguma coisa diferente?”.
Até mais dia nenhum.

Coisa mais gostosa do mundo entender e conviver com quem se é, e esquecer quem se foi em resposta ao que outros queriam que você fosse

Das mudanças…..

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Das mudanças…..

Não pretendo discorrer aqui, sobre aquela “mudança” de essência… aquela que nos permitiu construir ao longo de nossa existência a nossa é tica pessoal….. táo pouco do mundo moral ou amaoral (não confunda com imoral) de cada um … mas de nossa evolução… a té nossas células mudam… a partir do momento que nascemos…. começamos a morrer … então bora lá… refletir um pouquinho? Talvez eu te alcance…. talvez eu apenas lamente…. mas o convite está feito.

Bem, vamos la…O delicado e o cômico das mudanças é que por mais que mudemos todos os dias (pelo menos um pouco) quando queremos efetuar esta mudança em outrem voluntariamente, esbarramos numa limitação; pois, esta modificação é desejada sempre a feitio do requerente, fazendo com que o candidato assuma a postura idealizada por este requerente. Mas não funciona assim, mesmo com anuência do possível modificado, o resultado suscita uma corruptela imprevisível, ou seja, a mudança nunca será da forma de quem deseja, simplesmente porque ninguém é do jeito que a gente deseja.

É muito difícil a percepção da própria mudança, é mais fácil nós notarmos nos outros, porém não é impossível. As alterações em nossas ações e, mormente, em nossas reações são mais suavemente identificadas quando comparamos com situações semelhantes ocorridas anteriormente, evidente que este insight carece de sensibilidade, sensibilidade esta comprometida pelas asperezas do nosso cotidiano frenético. Estamos tão afundados em nossos afazeres, que se torna quase impraticável a possibilidade de irmos até a borda pra respirar; e é neste cenário que perdemos a percepção da mudança.

Há muitas pessoas que batem no peito e afirmam que jamais mudarão, pois são originais, sinceras e que têm personalidade. Em jactância proclamam-se pertencentes a uma seleta lista dos que não se influenciam. Concordo que devemos manter a nossa essência, ser fiel ao nosso espírito e não embarcar numa nau de volubilidade; mas é desperdício não mudar, pra não dizer estupidez. Devemos mudar quando precisamos, devemos mudar porque faz parte do aprendizado; é quase impossível que vivamos uma existência inteira e não agreguemos nada a ela. O que vemos, sentimos, fazemos, omitimos, tocamos… tudo vai nos moldando, mudando.

Às vezes, essas pessoas que nunca mudam procuram entender o motivo que as levam a não serem bem aceitas, mas essa investigação para no limite do seu engessamento como ser; decretando que o erro está sempre na outra pessoa; como diria Sartre, “o inferno são os outros”. Há uma matemática simples, se a maioria acha que há algo de errado – não que a maioria seja o reflexo da verdade¬¬ – então, vale a pena uma autoavaliação, uma reflexão sobre pensamento e atitude.

Quem muda a si, reflete no Outro… e se outro se engessa…. bem…. não há fluxo…. não há fluxo… não há vida que de jeito. Dias desses ouvi um realato em que me muito sabiamente alguém me disse : ” é que no relacionamento, as vezes chegamos um ponto que ou você assume a pessoa, ou termina de vez”… aplausos!!!! Ele enfim…. estava se tornando quem ele era…. com todos os seus valores e essências mantidas, ele havia “mudado” …. e é isso…. a vida… o trabalho…. tudo demanda mudança…. relacionamentos então…. penso que esses devem ser continuamente aberto a elas… ou o resultado é o aniquilamento, a tristeza, a repetição….. Então que tal mudar um pouquinho ? Isso não é fácil….. requer coragem….. persistência e espontaneidade…. pois tem que ser “prazeroso” …. sim, há muito de prazer em sair da zona de conforto.

A emblemática data de início do ano pode ser uma época propícia para esse tipo de avaliação, pode ser um ponto de partida para mudanças na vida que inevitavelmente partem de dentro pra fora, não precisamos ser uma “metamorfose ambulante”, mas é muito chato ter uma “velha opinião formada sobre quase tudo”.

sinestesia

“…E a vida continua surpreendentemente bela mesmo quando nada nos sorri …”

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“…E a vida continua surpreendentemente bela mesmo quando nada nos sorri …”

Daí a exatamente 5 dias …. saí de casa ainda bem cedo….. enlutada …. havia chorado um pouco … guardado meus fantasmas num armário …. e com um corte fundo aberto q por vezes sangra … eu tinha uma reunião importante… estava em cima da hora mas resolvi fazer outro caminho a pé … seguia parte do trajeto ainda remoendo minhas dores… e outra parte com algumas pessoas … que as vezes nos param por informações … e tal…. e do mais…. na parte mais difícil …. uma moradora de rua … ou não, sei la … dessas que passam pelas feiras livres a procura de algum alimento.. me pediu um dinheiro… bem… nunca dou e não dei…. mas o pior … o melhor… ela continuava tentando falar comigo… e eu seguia apressada … até que ao fechar o sinal estávamos ali as duas, num pé igualdade mediante os devires de nossas vidas e vontades…. e então ela me disse moça mas você tem horas? Eu que de fato não uso relógio, evitei pegar o celular até porque não queria mesmo nada …. mas algo de mim pulsa muito espontaneamente engraçado…. e me vem numa força … sei la de onde… Nietzsche é quem sabe … eu lhe disse com alegria vital, “moça, eu tô numa situação, que não tenho horas, não tenho dinheiro, não tenho ninguém …. não tenho nada “ (por favor , não me remetam a tal música do “lepo lepo”) … Mas tenho que ir atrás de mim… Ela então me sorriu desdentadamente e disse : mas o importante mesmo é isso aí… você ta dando esse sorriso, você tem saúde, vai ser feliz…. foi então que eu gargalhei mais ainda… e ia … continuando a calçada….. comigo… e eu com esses meus impulsos em falas soltas… lhe disse: Você já pensou em desistir ? E continuei… pois as vezes eu tenho vontade desistir de tudo…. Ela continuou e disse : Não diga isso, você tem tudo moça, e não reclame não que Deus não agrada disso… bem… não sei se Deus ou alguém…. não sei se lhe fiz algum bem… mas a vi tão satisfeita, pois de sua invisibilidade concreta e cotidiana alguém por minutos, ainda que não lhe dando nada…. lhe deu alguma atenção…ela existiu, eu existi …. sei que ela seguiu sorrindo e eu chegando em meu destino …. logo mais parei e observei … ela continuava a pedir dinheiro… e enfim…. o que lhe falta, não me falta …. eu que lhe dei … também recebi….. neste dia não me importei em ter esquecido o filtro solar …

SE PERDER PARA SE ENCONTRAR…

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SE PERDER PARA SE ENCONTRAR…

SE PERDER PARA SE ENCONTRAR…

Daí … tropecei em uma questão um tanto ” Nietzscheniana”   da vida…. “torna-te quem tu és” …. bem, mal sabia eu que secando aqui um corte, esse pensamento viesse tão em bom lugar…. e lendo o texto….. cá pensei, sim…. e isso vai mesmo além de conhecer a ti mesmo…. pois tornar quem tu és é uma não estagnação do ser “eu” … é o exercício da potência…. “do vir a ser”, de nos apropriarmos de nós mesmos, e isso vai além do “conhece a ti mesmo” … isso é travar uma luta com a própria gravidade … é exercer o seu poder de o dono de si, responsável por si… do meu corte , sei qual é o remédio, para tal precisei prestar atenção que de fato estava profundo e sangrando, devo eu mesma apropriar-me em saber qual o meu diagnóstico, o que sinto, em que estado me encontro e cabe a mm a responsabilidade por minha saúde e fundamentalmente por minhas doenças.

Não me cabe então me arrepender, se errei, me cortei, isso também me constitui, faço disso a minha busca por outros caminhos, plenos, “brilhantes”. O meu erro deve ser o meu acerto, como bem diz Nietzsche, conhecer a si mesmo, é saber cuidar de si e tornar a ser quem somos vai além….

“Vencer o ressentimento, deixar de apontar o dedo na cara dos outros procurando culpados. Deixar de apontar o dedo para si mesmo, buscando ferir-se e limpar-se dos pecados. Não, é preciso criar novos valores para tornar-se o que é. É preciso estar sempre alerta, em estado de guerra, tornar-se guerreiro e preparar-se para a batalha constante. O conhecimento de si não pode acontecer sem um cuidado de si, que permite um crescimento contínuo, um vir a ser infinito. Fazer de inimigos aliados, aprender a navegar nas tormentas.”
Então… o corte ainda aberto, necessita um cuidado profundo … e se eu não for forte agora …. jamais serei forte. Jamais me tornarei quem sou.
O que sou eu senão minha vontade potência? Senão toda minha força que pulsa em natureza?
Sei lá…. vou cuidar disso. Dói.