A velocidade do nu …

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A velocidade do nu …

 

Algumas pessoas têm fotos de pornografia no celular. Eu tenho comidas Gosto de ver comida e, às vezes, gosto de enviar fotos de comidas para meus melhores amigos. Também gosto de desenhar vestidos. Me acalma e me faz sentir bem quando estou doente.

Gosto do cheiro da cor laranja no papel.

Gastar um giz de cera laranja, bem laranja, no papel é uma delícia.

Gosto de cactos e pequenas plantinhas suculentas. Gosto de cafés, e barulho de vento.

Gosto de morder borrachas.

Quando era pequena, minha mãe advertia sobre o perigo de comer borrachas. Aprendi que borrachas não são comestíveis.

Aprendi também que continuo gostando de comer borrachas. Comer comê-las não, mas mordo-as todas.

São gostosas de enterrar os dentes e provocam um calorzinho bom nas gengivas.

Quer dizer, as crianças testam as coisas, experimentam, provam. Provar o mundo é uma delícia. Devíamos fazer o mesmo, confesso que ainda o faço.
Provo o gosto do café preto todos os dias.
Provo as manhãs com leitura e café preto.
Existe alguma coisa sempre nova no provar.
Não falo do provar que reprova, tampouco do provar restrito à novidade. Provo cafés a cada manhã. A cada manhã sou café e letras.
Minha lista de gostos me faz giz laranja a cada vez que cubro uma folha grande pressionando a cera no papel. Na verdade gosto do cheirinho do giz laranja.
Nossas listas de gostos nos dizem aquilo que escolhemos para demorarmo-nos a cada vez que somos. Venho me perguntando: sobre o que temos escolhido nos demorar?
A escolha de demorar-se em algo também é uma escolha de liberdade. Quero dizer com isso que o tempo utilitário serve à velocidade, e o tempo de demorar-se não serve a nada nem a ninguém.
Ele demora sobre as coisas, ele experimenta a margem mole e porosa das coisas. A escolha de demorar-se é uma escolha de liberdade porque é uma escolha marginal.
Demorar-se sobre as coisas é poder transitar pela margem das coisas.

O tempo de demorar-se é brincante por poder entrar e sair do que são as coisas, por conhecer o nada que as coisas são.

Mas falemos sobre a pornografia partilhada…
O que me instiga é isso que praticamos e denominamos partilha. Então acho que não é antes o conteúdo, mas, sim, o tempo.

Me parece contraditório que o tempo da partilha seja veloz. E aí entendo a curiosidade pelo conteúdo. Imagine um encontro entre pessoas na rua. Cada um de nós pode pensar em formas diferentes de um encontro acontecer.

Penso em dois corpos que se abraçam longamente… alguém morreu ou são namorados! Ou talvez tenham saudades um do outro. Mas, quem sabe ainda, gostem de se abraçar e dizer versos recém lidos na condução?

Penso em corpos que se esbarram, _ “Desculpa, foi sem querer! ” Sorriem sem graça e seguem, cada qual, seu caminho. Penso em encontros de raiva, tristeza, felicidade, dor, mania, paixão, último encontro, encontro inesperado, primeiro encontro, encontro de negócios, de reaproximação.

Para cada encontro um tempo. E é no tempo que se demora, onde posso fazer lugar de partilha com o outro.

A troca de qualquer conteúdo pelos celulares modernos é veloz. Assim que recebo uma fotografia do mikey pelado ou o que quer que seja, eu envio imediatamente para os meus contatos. E eles recebem o mikey pelado, ou o que quer que seja, aonde quer que eles estejam, cozinhando em casa, trabalhando, trocando fraldas, transando ou chorando em um velório.

Bem, para mim ficamos realmente nus quando nos demoramos onde gostamos…

O tempo longo me parece ter mais afinidade com partilhas.

O problema em recebermos fotos de pessoas nuas pelo celular não são os corpos das pessoas que estão nuas, sejam eles jovens, velhos (sim, os corpos envelhecem e não há nada de feio nisso), gordos, tatuados ou magros. O problema é nos fazermos disponíveis a todo e qualquer momento.

É a chatice da esvaziada e repetida história, sobre “vazar alguém pelado”, sempre tomando espaço nas manchetes dos jornais. Outra pessoa pelada, mas que raios! Será que não cansamos de ver bundas?! Não interessa se é uma bunda famosa ou não, uma bunda é sempre uma bunda, todo mundo tem bunda. O problema é que aquilo que nos choca ainda é a bunda, e não o abuso sobre expor-se o outro contra sua vontade. O problema é a falta de cuidado ético consigo e com o outro.

O descuido acontece antes, ao apressarmo-nos, sempre nos colocando na frente do outro. Ocupamos abusivamente todos os espaços de privacidade e solidão.

Espaços necessários para que o outro permaneça existindo outro, na sua diversidade e nas suas próprias escolhas. Antes de encontrar o outro, eu saboto o outro, eu vazo o outro, arremesso coisas indiscriminadamente em cima dele. Eu arremesso o outro.
Venho me perguntando sobre o que temos escolhido nos demorar. E com essa pergunta, acabam surgindo sempre as mesmas figuras repetidas e compulsivamente gastas, como a sensação de gozo enfraquecido pelo homem que bate punheta 50 vezes por dia.

Não é fácil sair da prática da velocidade, o círculo compulsivo de funcionamento fácil nos faz acreditar na hierarquia da velocidade sobre o tempo. Aquilo que temos escolhido nos leva a pensar sobre nossas práticas de liberdade. Aquilo sobre o que escolho me demorar fala dos sentidos que trago junto a mim.

Aquilo que escolho indica o que não escolho, tudo aquilo que não escolho fala da minha liberdade enquanto potência criativa em formas de existir. Escolho comidas, borrachas de comer, cheiros de sabonetes de frutas.

Escolho não querer receber mensagens 24 horas por dia. Escolho o gosto de escrever com lápis e papel porque me dá prazer. Escolho questionar se aquilo que escolho foi realmente escolhido por mim. Escolho o tempo de parar, escolho a urgência de nos determos sobre o tempo de demorar-se. Escolho um olhar mais demorado e lindo depois de fazer amor.

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  1. Oxe! Concordo plenamente … e inclusive quando não quero receber fotos disto ou daquilo, textos daquilo ou disso, eu simplesmente deleto o “mala”, excluo o numero e por fim bloqueio. Ainda tenho esta escolha, de escolher o que quero.

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